CD Setecentos

O repertório por nós escolhido para esta gravação representa os diversos estilos que constituem o núcleo da cultura musical ocidental, que se tornou a base da nossa música brasileira. Para interpretar este repertório, que abrange setecentos anos de música instrumental, utilizamos diversos tipos de flautas doces, desde os tipos mais primitivos da época medieval, passando pelos modelos da renascença e barroco, chegando aos instrumentos modernos desenvolvidos por nós. Neste campo de vanguarda, contamos com a interação obtida através do uso da eletrônica para a manipulação sonora.

Ricardo Kanji e Cesar Villavicencio são os artistas envolvidos nessa gravação.

Repertório | Compositores

Notas – Música medieval

As peças medievais que aqui interpretamos eram chamadas de notas. Estudos parecem indicar que estas danças francesas são uma mistura de estampies e puncta, outras duas danças medievais. São peças escritas de maneira polifônica e de um espírito de festança, possivelmente usadas frequentemente tanto pela aristocracia como pelo povo em geral, fazendo parte inerente da vida cotidiana da sociedade do final do século quatorze.

Orlando Gibbons – (Oxford 1583 – Canterbury 1625) era um dos mais importantes músicos da Inglaterra no começo do século dezessete, notável por sua música sacra e para órgão. As fantasias aqui tocadas foram editadas em 1620, e são feitas nos moldes da fantasia inglesa: o mesmo tipo de compasso do começo ao fim; sucessivas entradas das vozes em imitação; estilo homogêneo para ambas as vozes, e estrutura musical contínua com as junções das seções imitativas bastante dissimuladas.

São verdadeiras aventuras musicais que passam por mirabolantes metamorfoses, que comparamos à arte de M.C.Escher na gravura. Para estas três fantasias utilizamos flautas em sol, cópias de instrumentos do final do século dezesseis.

Georg  Philipp Telemann (Magdeburg 1681- Hamburg 1767) , o mais prolífico compositor de sua época, respeitado e admirado por sua importância também como educador e teórico, contribuiu enormemente para expansão da prática de música de câmera na Alemanha do século dezoito.

De sua vasta obra, as “Sonates Sans Basse, à deux Flutes traverses, ou à deux Violons, ou à deux Flutes à bec”, publicadas em Hamburgo em 1727, são um exemplo da riqueza criativa de suas composições. São peças com uma nobre simplicidade, que inspiram uma execução espirituosa e animada.

Para esta Sonata III usamos duas cópias de flautas de J.Denner, luthier de Nuremberg, que muito provavelmente foi o provedor dos instrumentos que Bach e Telemann tinham à disposição, pois tem uma sonoridade e resposta muito boa também nos agudos, tessitura bastante explorada por estes compositores.

Pierre Danican Philidor (Paris 1681 – Paris 1731), membro de grande família de instrumentistas de sopro, percussionistas e compositores que fizeram muito sucesso junto à corte francesa. Aos dezesseis anos ingressou na grande écurie, alguns anos depois na chapelle royale, como oboista, e em 1712 como flautista na cobiçada chambre du roi, e era muito estimado por Louis XIV.

As seis suites para duas flautas transversais, jóias de grande qualidade musical, foram editadas em Paris em 1717/18, e são de estilo típico francês. Tivemos a sorte de terem sido editadas repletas de ornamentação detalhadamente escrita, incluindo até os “flattements” (vibrato francês, feito com os dedos).

Para esta “Deuxiéme Suitte” usamos duas “Flûtes de Voix”, assim chamadas por se assemelharem à voz humana. São instrumentos apropriados para tocar o repertório escrito para a flauta transversal (flûte traversière, ou flûte allemande), ambos em ré.

Modulus X – Improvisação contemporânea

Temos sido testemunhas de diversas mudanças durante nossa história trazidas pelo desenvolvimento instrumental. A criação de novos meios de expressão no âmbito musical é naturalmente ligado às necessidades de extrapolar barreiras e inovar à procura de formas diferentes de se expressar através de sons. Nós vemos o uso da eletrônica como mais um desenvolvimento instrumental. Nesta faixa é usada a chamada e-recorder – flauta doce eletrônica desenvolvida por Villavicencio no Instituto de Sonologia de Haia, Holanda – que consiste de uma flauta contrabaixo, do construtor alemão Herbert Paetzold, com um sistema eletrônico incorporado capaz de gravar e transformar sons ao vivo. Nesta faixa também é usada uma flauta tenor feita por F. Von Huene que é construída seguindo as necessidades do repertório contemporâneo. Ela tem mais volume e uma extensão de três oitavas. O resultado é produto da incorporaração dos sons eletrônicos e acústicos em contraponto.